-Vamos, não seja tão molenga.
Peeta falou para mim. Já caçei tanto a minha vida toda, já matei todos os tipos de bicho, passei por muitas coisas, mas altura ainda era algo que me assustava. O morro da Cengonha era bem alto, e não era tão fácil assim descer.
-Dá pra esperar um pouco?
Fui tomando ar, e escorregando pela enorme rampa. Conseguia sentir a grama molhada passando pela minha pele, deve ter chovido esta madrugada.
Chegamos no final da rampa.
-Pensava que iria ter que mandar alguns pacificadores resgatar a garota em chamas de lá de cima.
Peeta...irônico. A mesma habilidade que ele tinha para fazer bolos ou pães, ele usava para caçoar de mim.
-Vamos, não podemos perder tempo.
Fomos andando até a costura. Como sempre, lá estava as mesmas casas, velhas e mal cuidadas, mas intactas pelo tempo. Passamos pela padaria dos pais de Peeta, onde o seu pai estava vendendo algum tipo de torta para uma senhora baixinha e idosa, que parecia estar reclamando pelo alto preço da mercadoria.
Não eram todos que podiam comprar na padaria do distrito, apenas alguns compravam regurlamente, como Madge, a filha do prefeito, e ainda alguns pacificadores.
-Vamos, é logo lá na frente. Disse Peeta.
Estávamos andando quase que correndo. Nós dois parecíamos estar extremamente ansiosos para saber o que havia acontecido com Sophie.
-Chegamos.
Era uma casa verde de 2 andares. No andar de cima, Margaret armazenava alguns lotes de comida recém chegada da capital. No andar de baixo, haviam apenas 1 quarto, onde dormia Sophie e sua mãe, 1 cozinha e 1 banheiro.
Batemos na porta, e Sophie apareceu com um sorriso no rosto.
-Olá Kat. Que bom que você veio.
-Estávamos ansiosos para comprar algumas maçãs. Minha mãe está louca para comer algumas, até parece que está grávida.
Não sei se isso conveceu Sophie. Todos sabemos que minha mãe não é dessas que tem desejos por comida. Com tantos anos passando fome, nós acabamos aprendendo a enfrentar esse problema. Mas ela sorriu.
-Vamos, podem entrar. Desculpe a bagunça, mas é que minha mãe está tentando arrumar alguns lotes novos que chegaram agora há pouco.
De fato a casa estava bagunçada, haviam caixas de madeira vazias espalhadas por toda a sala, e um cheiro de frutas tropicais invadia todo o ambiente. Provavelmente vieram do distrito 4. Dizem que antes do 4 exisitir no local, havia um país chamado Brasil, onde as frutas tropicais davam em grande quantidade, o solo era muito fértil para o plantio.
Adentramos um pouco mais na casa, e lá estava Margaret, sua aparência não era das melhores, estava muito mais magra e com enormes olheiras também, parece que não dormiu muito ultimamente.
-Olá Margaret.
-Oi Kat. Sophie me disse que você pediu algumas frutas, sorte sua que chegaram algumas hoje da capital.
Sophie virou o olhar. Estava fazendo a mesma coisa que eu faço quando quero fugir de algo, ou um assunto indesejado. Eu disse:
-Mas...eu não pedi nenhuma fruta, foi ela que veio hoje na minha casa me oferecer algumas.
Margaret olhou para Sophie. Parecia que ela já estava sabendo o que havia acontecido.
-Desculpem então, ela sabe que eu não gosto que fique oferecendo comida à vocês, dá a impressão que queremos o forçar a comprar em nossa mercearia.
Sophie disse:
-Mamãe, eu não podia deixar a senhora morrendo aqui. Definhando...
Definhando? Como assim? Ela não poderia estar com fome, já que há tanta comida no andar de cima. Então decidi falar:
-Do que ela está falando?
Falei isso olhando para Margaret, mas foi Sophie quem respondeu:
-Ela está doente! E precisa de um remédio muito caro que só se vende na capital. Não tem coragem de pedir dinheiro a ninguém para comprar.
Sophie não podia passar dos 8 anos, mas naquele momento, parecia muito mais madura do que o normal. Parecia uma adulta. Ás vezes, o sofrimento nos amadurece. E isto era o que não faltava no distrito 12.
-Vá já para o seu quarto! Está de castigo.
Sophie se virou para mim:
-Katniss, por favor, nos ajude. Ela tem muito orgulho, mas eu não posso perder minha mãe. A perda do meu pai já foi demais. Você deve entender.
Eu entendo muito bem do que ela está falando. Quando meu pai morreu no acidente da mina, foi como se houvessem arrancado um pedaço de mim. Se minha mãe ou Prim também me deixasse, seria o fim. Acho que ficaria louca.
-Claro que entendo. Quanto é o remédio?
-É um pouco caro, porque, além do preço normal, ainda há a taxa de entrega da capital até aqui no 12.
-Pode esquecer isso. Quanto custa?
-São 500 linares.
500 linares? Para uma família do distrito 12 seria o fim da fome por três meses inteiros. Mas esse valor é pequeno demais para um vitorioso dos jogos vorazes, tenho certeza que Peeta vai querer ajudar também, ele não deixaria que eu pagasse tudo sozinha.
-500 linares dá para comprar todo o remédio que ela precisa?
-Sim Katniss. Respondeu Sophie, com os olhos cheios de esperança.
-Pois então eu pago.
Peeta me interrompeu:
-Não vou deixar que você pague sozinha. Vamos fazer assim, eu dou 250 linares e Katniss também. Não se preocupe Sophie, sua mãe não vai morrer.
A menininha não podia conter a alegria, ela me abraçou tão forte que acho que poderia sentir os seus batimentos cardíacos.
-Muito obrigada Katniss.
Ela se virou para Peeta e o abraçou da mesma forma que fez comigo.
-Muito obrigado Peeta. Sabia que podia contar com vocês dois.
Margaret também parecia estar muito feliz. Ela disse:
- Não sei como posso agradecer à vocês pelo o que estão fazendo comigo.
-Não precisa agradecer. Só continue sendo esta ótima amiga.
-Vamos, levem algumas maçãs que chegaram, podem pegar.
Sabia que Margaret deixaria que eu pegasse quantas maçãs eu quisesse, mas não queria pegar muitas, isso significaria uma maior prejuízo para sua mercearia, já que provavelmente ela não deixaria que pagássemos pelas frutas. Por isso, só peguei 3. E Peeta parece ter pensado o mesmo que eu, porque só pegou 1 maçã e 1 goiaba.
-Já vamos indo. Prometi à minha mãe que não chegaria muito tarde hoje em casa. Além do mais, temos que dormir cedo, poque amanhã tem a colheita.
-Tudo bem, vá Katniss. Mais uma vez, muito obrigada à você e à Peeta. Mande lembranças à sua mãe.
-Pode deixar que mandarei.
Sophie e Margaret nos conduziram até a porta e assim saímos de sua casa. As duas estavam muito felizes. Parecia que eu havia acendido uma chama de esperança na vida das duas. Margaret sabia muito bem que se houvesse pedido, eu daria os 500 linares, mas ela é muito orgulhosa.
Passamos agora pela padaria.
-Tenho que ir Katniss. Prometi à meu pai que o ajudaria a fechar a padaria.
-Tudo bem, até mais.
-Até mais, boa noite.
Fui andando sozinha um pouco mais, até chegar a vila dos vitoriosos. O contraste era totalmente diferente da costura. As árvores eram bem mais cuidadas e o cheiro muito mais agradável, e a fonte continuava lá.
Por que estava lá? Até me esqueci de perguntar isso para Peeta hoje, ele deve ter visto assim como eu. Uma coisa assim não passa despercebido aos olhos de ninguém.
Subi as escadas que davam acesso a minha casa e abri a porta. Lá estavam minha mãe e Prim.
Minha irmãzinha estava sentada à mesa, enquanto minha mãe parecia estar terminando de fazer algumas massa.
-Katniss, sente-se, já vou colocar o jantar.
-Vou apenas no banheiro lavar as mãos.
Depois de enxaguar bem as mãos que deviam estar bem sujas, depois de haver pego naquela grama do morro da cegonha, fui até a cozinha. E minha mãe e Prim já estavam comendo.
Me sentei também. Minha mãe disse:
- Demorou um pouco. Pra onde você foi?
-Fui fazer uma visita à Margaret, ela estava doente.
-Mas ela não me disse nada. Nossa, ela está bem?
-Agora sim.
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