-Mãe, vou sair.
Não costumava avisar para ninguém quando ia sair, estava sempre sumida. Todos estavam sempre me procurando.
Abri a porta e vi algo novo. Era uma fonte, muito bonita, estava na frente da casa do Haymitch, mas não acho que estava lá por que ele pediu. O tradicional bêbado não se importava com acessórios, ou algo que pudesse dar maior beleza a sua casa.
Ela estava espirrando água para todos os lados e deixava a vila dos vitoriosos mais bela. Mas quem colocou-a aqui? Quando? Provavelmente foi nesta manhã, tiveram tempo de sobra para isso, já que eu acordei tarde demais, e agora já é de tarde. Hora de me encontrar com Peeta no morro da Cegonha.
Era um morro bem alto esse, cheio de grama e flores exóticas. Para todos, tinha um cheiro de lavanda, algo bem distinto por aqui. Para mim, tinha cheiro de saudade. Meu pai sempre levava Prim e eu à esse morro, brincávamos lá, junto com Gale e seus irmãos. Enquanto isso, meu pai ficava apenas observando o céu, olhando para os tordos que flutuavam com a brisa no ar. Parado.
-Katniss?
Olhei para o lado. E lá estava Sophie, a filha de Margaret, dona de uma mercearia que vendia produtos bem caros. Comida, algo muito valioso aqui no distrito 12.
-Olá Sophie. Tudo bem?
Não sabia sua idade exatamente, mas não devia passar dos 8 anos. Estava um pouco apática, pálida. Havia tristeza em seus olhos.
-Tudo Katniss. Eu vim aqui porque minha mãe pediu para que eu perguntasse à você se você não gostaria de algumas frutas fresquinhas que chegaram hoje pela manhã da capital.
Ela estava me oferecendo a sua mercadoria. Isso só podia significar uma coisa, estavam em uma situação muito difícil. Sophie morava apenas com a sua mãe, pois seu pai morreu no mesmo acidente na mina que meu pai. As duas só não passavam fome, porque tinham comida de sobra em sua mercearia, mas precisavam sempre comprar novos lotes, e quase sempre os habitantes do 12 não tinham dinheiro suficiente para comprar.
-Claro Sophie. Diga à ela que no fim da tarde de hoje eu passo na mercearia e pego algumas frutas. Obrigada por vir me avisar.
-De nada Kat.
Ela saiu feliz, totalmente o contrário de como ela chegou para falar comigo. Não estava com muita vontade de comer frutas, ainda mais vindas da capital, mas tendo dinheiro para o fazer, não podia deixar de comprar e ajudar Margaret e Sophie. As duas eram muito boas, Sophie estava sempre brincando com Prim com suas poucas bonecas, e Margaret sempre vinha aqui em casa nos finais de semana conversar com minha mãe, as duas eram muito amigas.
Retomei meu caminho, e continuei a andar na direção do morro da Cegonha. O que Peeta quer falar comigo? Confesso que isso está martelando a minha cabeça. Depois de passar pela padaria, subi uma rampa que dava acesso ao morro. E lá estava ele, sentado na grama, segurando uma flor, olhando-a. Pensando.
Em quê? Ás vezes gostaria de poder ler mentes, isso me ajudaria bastante. Evitaria que eu magoasse algumas pessoas.
-Oi Peeta.
Ele se virou e olhou para mim. Seu rosto estava neutro e não demonstrava qualquer sentimento.
-Olá Katniss. Gostou da torta de chocolate?
-Ainda não a comi. Acordei há pouco tempo, não quis comer nada em casa. Mas tenho certeza que está deliciosa, vindo das suas mãos.
Ele sorriu.
-Depois de passar na sua casa, fui andando até à padaria, mas no caminho encontrei Gale. Ele falou comigo.
Falou com Peeta? Será que ele falou alguma coisa sobre ontem? Não. Gale não é desses que gostam de fofocas, ele não contaria nada sobre o beijo, ainda mais para Peeta.
-O que ele quis?
-Na verdade, ele não disse muita coisa. Apenas deu um tapinha no meu ombro e disse Parabéns.
Quando Gale fez isso? Ele já havia falado comigo? Provavelmente sim. Peeta continuou:
-Pensei que você pudesse interpretar isso, não entendi muito bem. Não conheço Gale tão bem quanto você.
Olhei para o lado, ás vezes faço isso quando quero fugir de algo.
-Não sei. Pode ter sido por qualquer coisa. Você está sempre fazendo coisas que merecem parabéns.
-É...pode ser.
Peeta não parecia estar muito satisfeito com a minha resposta. Ás vezes ele parece poder ler minha mente, e parecia que ele estava fazendo isso agora. Mas ele mudou de assunto:
-A colheita será amanhã. Está preocupada?
-Um pouco. Não deixei que Prim pegasse comida extra com os pacificadores, por isso, as chances dela ser selecionada outra vez é muito pequena. Além do mais, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, não é mesmo?
Ele não falou nada. Apenas fez um olhar de concordância.
-Pelo menos podemos ter certeza de que não poderemos voltar àquela arena da morte.
-Toda a minha vida tudo o que eu mais queria era essa certeza. Agora que a tenho para mim, fico mais aliviada, mas, ainda estou aflita por Prim.
-Não se preocupe, ela não é tão azarada assim.
Não pude conter o riso. Peeta estava sempre a me fazer rir, seja com suas piadas ingênuas ou com suas histórias de como queimou uma enorme fornada de pães.
-Já está ficando tarde. -Eu disse- Prometi à Sophie que passaria em sua mercearia para pegar algumas frutas vindas da capital.
-Ela também veio falar com você?
-Como assim também? Ele falou com você?
-Hoje pela manhã ela passou na padaria e perguntou se eu não queria comprar algumas frutas frescas.
A situação estava muito pior do que eu pensava. Não era de costume que Sophie oferecesse mercadorias à mais pessoas, ela só fazia isso comigo pois sabia que eu tinha dinheiro para o fazer e também era mais amiga de sua mãe. Tinha intimidade para fazer isso. Se ela perguntou à Peeta também, é porque algo está errado.
-Vamos lá na mercearia, quero fazer uma visita à Margaret.
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