Me lembro de cada detalhe desta manhã, a colheita, onde Prim, minha querida e frágil irmã foi selecionada para participar da 75ª edição dos Jogos Vorazes. Vi o seu rosto de desespero. Sei que ela tentava se manter forte, mas eu a conheço melhor do que ela pensa. Toda a minha vida, vim cuidando dela, protegendo-a. Não deixando que nada pudesse a muchucar. E veja onde estamos agora, veja para onde ela vai, justamente para aquela arena da morte, onde certamente ela não terá a menor chance de lutar com outros tributos bem mais treinados. Vi a habilidade de Cato e Clove no ano passado. Lutam acho que desde os 2 anos de idade, vai ver já vão se preparando na barriga da mãe.
Prim está agora no palácio da justiça, deve estar recebendo orientações de Effie, como recebi no ano anterior. E onde estou agora? Bem aqui, parada, apenas beijando Peeta Mellark. Não consigo sentir a mesma coisa com Gale, por mais que ás vezes possa parecer que eu gosto mais dele, é apenas... amizade! Com Peeta, eu sinto, um amor tão grande que chega a me sufocar.
O afastei de mim, eu o amo, mas não posso deixar Prim sozinha:
-Temos que ir ao palácio da justiça.
Ele parecia frustrado. Sei que ele também ama Prim, mas, pareceu que eu havia cortado um importante momento. Do que eu estou falando? Este FOI um importante momento. Mas... desculpe Peeta, Prim é mais importante.
Corremos como loucos. Eu já sabia que conseguia correr mais rápido que Peeta, no ano passado ele chegou a me atrapalhar na caçada por comida, mas agora sinto que ele está verdadeiramente se esforçando para correr tão rápido quanto eu.
Chegamos no palácio. Logo na entrada haviam dois guardas.
-Com licença, preciso falar com minha irmã.
Os dois me olharam como se nem me conhecesse, não sou de ficar me gabando, mas sei que sou famosa, afinal, eu ganhei com Peeta os Jogos Vorazes.
-Podem deixa-la entrar.
Ouvi uma voz ao fundo, era Effie Trinket.
Os dois guardas abriram caminho com uma cara de insatisfação. Caminhei um pouco com Peeta e logo encontrei Effie.
-Katniss, minha querida!
Ela me abraçou. Não gosto quando ela faz isso, seus acessórios são tantos que ficam me espetando.
-E você! -ela olhou para Peeta- está mais forte! Venha cá.
Depois de abraços e beijos, resolvi falar:
-Preciso falar com Prim.
Ela pareceu acordar de um momento de fantasia.
-Oh sim, claro. Ela está mesmo esperando você. Pode seguir em frente, é a segunda porta a direita.
Andei com Peeta até o local, abri a porta. Logo vi, minha irmã encolhida na cama, com os olhos cheios de lágrima.
-Prim.
Ela se virou para mim, pude ver o sorriso em seu rosto.
-Katniss! Pensava que você não vinha me ver.
-Mas que bobagem foi essa?
Abracei-a forte. Ela estava chorando muito.
-Katniss, eu estou com muito medo. Não quero ir para os jogos, eu vi você lá...por favor, eu não quero. Prefiro morrer agora.
Nunca deixaria que Prim morresse assim, não permitiria que ela se matasse.
-Você não vai morrer.
Já havia até me esquecido da história com Greasy Sae, de repente, ao olhar pra Prim, todo o sofrimento e dor foram embora. Mas não posso esquecer disso, que no final das contas, pode salvá-la.
-Ouça Prim, tenho uma história para lhe contar. -me virei para Peeta- você também, não deu tempo para lhe contar.
Falei sobre tudo que Greasy Sae contou para mim e Gale. Os 2 agentes secretos, a sacola com vários papéis, a citação do nome Primrose.
-Mas isso é muito grave. Temos que falar com o prefeito agora.
Depois de tanto tempo brincando com Madge, a filha do prefeito, sei que seu pai não é má pessoa. Sei que ele não ajudaria em nada essa injustiça com Prim. Mas como iríamos comprovar uma história dessas? E mais, estaríamos acusando duas pessoas, dois homens, talvez... dois pacificadores.
-Não sei se ele irá confiar em nós.
-Temos que tentar. -dizia Peeta- vamos para a prefeitura.
-Prim, teremos que deixar você aqui sozinha mais uma vez. Mas, só assim, você não poderá ir aos jogos vorazes. O que aconteceu com você foi uma armação. Eu lhe contei e...
Prim me interrompeu na hora:
-Esqueça isso Katniss. Confio em Effie e sei que ela não irá me deixar desamparada aqui. Vá com Peeta até à prefeitura.
Beijei a testa de Prim, e saí correndo com Peeta pelo palácio da justiça.
-Que horas são?
-19h.
-Ainda temos tempo.
Corremos mais um pouco. Não podíamos gastar tempo com bobagens, como... beijos. Prim partiria ás 00h em ponto. Sei que a capital é pontual, então o trem não sairia nem mais cedo, nem mais tarde do que o horário combinado. Ás 00h minha irmã estaria num trem para a morte.
Chegamos na frente da prefeitura. São 19h, então talvez o prefeito ainda esteja trabalhando.
Abri a porta. E lá dentro estavam dois guardas.
-O que vocês querem?
-Precisamos falar com o prefeito.
-O senhor prefeito precisou sair mais cedo hoje. Já deve estar em casa.
-Muito obrigada.
A casa do prefeito da cidade não é perto da costura. Afinal, ele não poderia morar perto dos cidadãos do distrito 12. Seria mais fácil de uma revolta acontecer, sei que se uma revolução estivesse para acontecer não importaria se o prefeito morasse no ponto mais longe da costura, conseguiriam invadir sua moradia do mesmo jeito. Por isso teríamos que andar bastante.
-Por favor Peeta, corra um pouco mais rápido, precisamos chegar rapidamente ao prefeito e sua casa não é perto.
-Desculpe se não consigo correr como Gale.
Por que esse ataque de ciúmes agora?? Mais cedo ele me beijou, e agora colocando Gale como se fosse meu preferido. É como se ele soubesse de alguma coisa, quisesse se provar para mim. Como se ele soubesse do... meu beijo com Gale.
-Não fale bobagens. Foi a única coisa que consegui falar. Não podia falar nada sobre o beijo, não tinha certeza se ele sabia. Se ele já sabe, quem contou? Ou será que ele viu? Tudo aconteceu não muito longe da vila dos vitoriosos. No morro da cegonha, o mesmo lugar onde no dia seguinte ele me chamaria para conversar. Sei que Peeta gosta de ficar olhando para o céu ás vezes, como meu pai fazia. Talvez, ele havia ido justamente para observar o céu, e acabou encontrando outra coisa, eu e Gale nos beijando. Não tenho certeza, mas com certeza é a teoria mais provável.
-Já estamos chegando?
Peeta disse aquilo porque ele sabia como eu conhecia o distrito 12 geograficamente, sempre fui mais aventureira do que ele, e de noite, estava muito escuro. A iluminação pública não era boa, então ficava difícil de enxergar o que estava a nossa frente.
-Já é logo ali na frente.
Corremos mais um pouco e enfim chegamos. A casa do prefeito. Era tão bonita quanto as casas da vila dos vitoriosos. Não era velha e sem reformar como a casa de Greasy Sae.
Tocamos a campainha.
-Quem é?
Era a voz de Madge. Consigo indentificá-la em qualquer lugar.
-Sou eu Madge, e Peeta está comigo.
-Ah, você Katniss? Espere só um pouco.
Depois de um certo tempo ouvi a porta ser destrancada.
-Então, o que você veio fazer aqui?
-Precisamos falar com seu pai.
Ela me olhou triste.
-Lamento Kat. Mas o papai está muito ocupado. Não sei se ele vai querer atender a vocês.
-Por favor Madge. É muito urgente. Em nome da nossa amizade.
Ela hesitou. Olhou para baixo. Mordeu os lábios. Levantou os olhos.
-Tudo bem, vou chamá-lo. Esperem aqui na sala.
Peeta se sentou no sofá e logo fiz o mesmo.
-Você acha que ele irá confiar? Disse Peeta.
-Se fosse uma pessoa qualquer da costura, aposto que Madge não deixaria nem entrar aqui em sua casa. Mas, já sou amiga da família, e ganhamos os jogos do ano passado. Acho que temos mais status do que pessoas comuns.
Ouvi passos vindo em nossa direção. Era Madge:
-Ele pediu para que você fosse em seu quarto.
Nos levantamos. Andamos em direção ao quarto do prefeito. Nem sei se em toda a história do distrito 12 houve alguém que sequer pisou na casa do prefeito.
Chegamos no quarto e lá estava ele, em pé olhando pela janela.
-Com licença.
Ele se virou. Olhou para mim e Peeta, abriu a boca:
-Sei porque vocês estão aqui.
Ele não poderia saber. Deve estar falando de outra coisa, por isso decidi falar:
-Acho que o senhor não sabe do que...
Ele nos interrompeu:
-Sei que os papéis da colheita feminina estavam todos com o nome de Primrose.
Choque.
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