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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Capítulo VII- Correndo por uma vida

Meu coração batia forte. Por todo esse tempo Greasy Sae foi uma grande amiga. Sempre comprava os cachorros selvagens que eu e Gale caçávamos. Mesmo que não estivessem em bom estado, sempre bondosa. Se eu pudesse escolher alguém para ser minha segunda mãe, acho que poderia ser ela. Apesar da idade. Então poderia chamá-la de avó, já que de fato nunca tive uma. A vida aqui no distrito 12 não é tão confortável, por isso, o tempo de vida das pessoas não é longo. São raros os que conseguem chegar aos 70 anos. Mas Greasy conseguiu. E continuaria conseguindo, se não fosse por essa flecha que agora vejo cravada em seu coração.
-Greasy Sae!!
Corri até ela. Que se dane se alguém descobriu. Se íamos sofrer algum ataque.
-Por favor. Não morra. Tente respirar.
Ela me olhava delicadamente, não parecia mais agitada como estava antes. Seus olhos relaxados. Era de uma doçura que não havia quem não pudesse ser cativado por essa idosa.
Sei que ela estava tentando reagir.
-Minha querida, já estava na minha hora. Fico feliz que pude morrer por uma causa nobre.
Ela sorria.
Gale olhava ao redor, provavelmente estava verficando se havia alguém nos observando. Mas não havia, eu vi quando os dois fugiram correndo. Apenas atiraram a flecha e fugiram. Não estavam perto de Greasy, portanto, têm uma mira boa, devem ser treinados.
Eu continuava insistindo para que Greasy continuasse comigo. Ela estava pálida. E sangrava muito. Sua camisa já estava cheia de sangue.
-Olhe, você não vai morrer. Vai ficar aqui conosco entendeu? Nada de mais vai acontecer, isto foi só um susto, só tente respirar bem fundo.
Mas ela não estava nervosa, ela respirava fundo.
-Não estou preocupada Katniss. Não fique triste, eu estou feliz.
Naquele momento era como se um turbilhão de faíscas começassem a surgir em minha cabeça. Uma ideia.
-Gale, vamos levá-la até minha mãe.
-Mas Katniss, ela está muito frágil. Não sei se posso...
-Vamos logo! Pegue-a.
Gale não era fraco. Depois de tantos anos de caçadas e tempos treinando, ele tinha bastante força, sabia que era capaz de carregas Greasy Sae que ,aliás, não devia pesar tanto.
Assim ele fez. E foi carregando pela costura. Não haviam muitas pessoas lá, a maioria delas estavam ainda no palácio da justiça. Eu e Gale saímos muito antes do final da cerimônia, portanto, devem estar encerrando agora.
Chegamos em casa. Felizmente a casa de Greasy Sae não ficava tão longe da vila dos vitoriosos.
-Mãe! Mãe!
Ela não está aqui. Deve estar consolando Prim, conversando com ela. Dando umas últimas orientações. Devem estar totalmente desesperados quanto a mim. Eu devia estar lá com a minha irmã, falando que vai dar tudo certo, assim como eu fiz no ano passado, ela irá ganhar. Teremos duas vitoriosas na família. Já imaginou quanta honra Prim? A imagino sorrindo quando digo isso.
-E agora Gale, o que faremos?
Ele pode ser tudo, amigo, fiel, forte, mas não é onipotente. Naquela hora ele não sabia o que fazer.
Olho ao meu redor... nada.
-Vamos, mantenha a mão pressionada com este pano no ferimento de Greasy. Não deixe que saia muito sangue.
De repente olho para Gale e ela...ali, ele tentando mantê-la viva, logo depois de ter levado uma flechada.
Rue... A história se repete. Fico confusa. A morte se repete? Não! Não desta vez, não vou deixar que mais uma vá embora.
Saio pela porta da frente correndo. Não há ninguém. Onde está Haymitch? Não o vi hoje na colheita, deveria estar em casa. Mas do que me adiantaria um bêbado numa hora dessas? Preciso da minha mãe.
Ando mais um pouco. E logo vejo, ali está ele. Peeta. Grito seu nome:
-Peeta! Venha aqui! -ele olha para mim- Rápido.
-O que aconteceu Katniss? Estávamos procurando você como loucos, Prim está lhe esperando e...
-Vá agora correndo até minha mãe, vá chamá-la. Mande que ela venha para casa, preciso de sua ajuda.
Eu não era a única confusa neste momento.
-O que está acontecendo? Você não está falando coisa com coisa. Vamos, você precisa falar com Prim. Ela precisa de você.
-Só...por favor... vá chamar minha mãe.
Ela saberia o que fazer numa hora dessas. Tantos anos cuidando dos doentes do distrito 12 viriam a calhar agora.
Corro de volta para casa. E lá está Gale forçando um pano contra o ferimento de Greasy Sae.
-Não foi tão profundo quanto pensávamos. Ele não tinha uma mira tão boa.
Marvel tinha uma mira muito boa, ele conseguiu acertar em cheio no pescoço de Rue no ano passado. Os olhos se fechando, enquanto eu cantava para ela. Um acordo. Um sinal.
Não posso ser tão assim em cuidar de ferimentos, confesso que sempre tive enorme repúdia por feridos, Prim era talentosa, ela deveria estar aqui, não eu. Minha irmã saberia o que fazer numa hora dessa, sempre estava ajudando minha mãe. Enquanto eu saía de casa enquanto um moribundo se deitava na cama com esperanças de que minha mãe pudesse fazê-lo viver mais um pouco.
Olhei para Greasy Sae, ela estava tranquila, assim como Rue estava nos jogos vorazes.
-Você vai ficar bem. -olho para Gale- Falei com Peeta, mandei que ele chamasse minha mãe aqui.
-Mas e Prim?
-Ainda temos algumas horas até que o trem para a capital parta. Tempo suficiente para desmascarar esta armação.
Ouço um barulho de pegadas. Porta se abrindo. Era Peeta.
-Onde está minha mãe?
Ele olha para mim.
-Já está chegando, vim na frente porque queria saber você estava tão aflita.
Ele estava tão agitado que nem percebeu quem estava deitada na cama de doentes.
-Espere. Esta é Greasy Sae?
Ele a conhecia. Não sei como. Só eu e Gale tínhamos uma relação mais estreita com ela.
-Sim, é ela. Não temos tempo para explicar como tudo aconteceu, mas você só precisa saber que ela levou uma flecha no peito.
O ferimento não era tão grave ao ponto dela morrer em poucos minutos. Mas também não era tão superficial que pudesse esperar por horas para ser cuidado. Ela estava correndo risco de vida.
-Katniss, pegue aquele vidro.
Não posso acreditar que Peeta Mellark está me mandando pegar algum remédio. O conhecimento da medicina dele era tão bom quanto o meu. Tudo o que ele sabia fazer eram pães, bolos e tortas de chocolate com creme de laranja.
-O que você está fazendo? Eu disse.
-Vamos, não seja questionadora. Pegue aquele vidro rápido.
Fiz como ele me pediu. Era um vidrinho pequeno com algum tipo de líquido viscoso dentro. Entreguei-o à Peeta.
-Só preciso agora de um pano limpo, este está sujo com sangue.
Gale estava mais perto da cozinha. Fez assim como Peeta pediu.
-Agora só precisamos fazer isto.
Ele despejou uma certa quantidade do líquido no pano e colocou sobre o ferimento de Greasy. Olhei para o seu rosto e pude ver o alívio que estava sentindo. Aquilo estava fazendo bem a ela.
-O que você fez?
-Só apliquei alguns ensinamentos que aprendi com uma pessoa muito experiente.
Vi minha mãe abrindo a porta da frente.
-O que está havendo?
Seu rosto estava preocupado.
-Greasy Sae, está ferida. Levou uma flecha no peito.
Rapidamente ela pegou alguns vidros de sua prateleira.
-Saiam daqui. Preciso ficar só. Vocês só vão me atrapalhar.
Sei que ela não estava sendo rude. De fato, não podíamos fazer nada. Apenas ficaríamos vendo ela fazer os curativos, a única que poderia auxiliá-la naquela hora era Prim, mas ela não estava ali conosco.
Fomos para a sala.
-Que horas são?
Peeta olhou em seu relógio que ganhou de presente de Haymitch no ano passado.
-17h
- De que horas sai o trem de Prim?
-Exatamente ás 00h. Ela tem que ter algum tempo para arrumar suas malas.
Olho para Peeta. Seu rosto preocupado. Vejo novamente aquele menino que salvou a minha vida. Claro que não fisicamente, no ano passado, eu salvei mais ele do que ele a mim. Mas espiritualmente. Sentimentalmente...É nessa hora que consigo reacender aquela chama que me fazia ficar totalmente apaixonada por Peeta Mellark.
-Como ela estava, Prim?
-Depois que Leon foi selecionado, Effie os levou para dentro do palácio da justiça. E no telão foram passados alguns avisos da capital. Alguns anúncios do presidente Snow, falando sobre as regras dos Jogos Vorazes e outras coisas.
-Mas, e Prim?
-Sua mãe e eu procuramos você, queríamos ir até ela para conversar. Mas não achamos nem você nem Gale.
Estávamos ocupados, talvez estívessemos nessa hora, vendo Greasy Sae levar uma flechada no coração.
Peeta continuou:
-Então entramos no palácio da justiça e fomos para uma sala onde conversamos com Prim. Ela está com medo Katniss... Ela pensa que vai morrer nos Jogos Vorazes.
Aquilo fez com que um novo nó na garganta surgisse. Minha irmã nos jogos vorazes. Não. Isto não pode estar acontecendo. Ela não pode ir.
-Conversei com ela um pouco, mas ela queria falar com você. Andei pela costura a sua procura, e depois vim conferir aqui na vila.
-Quero falar com ela.
Gale interrompeu:
-Pode ir Katniss, acho que nas mãos da sua mãe, Greasy Sae está bem.
Sei que ela está. Minha mãe tinha mãos milagrosas. Podiam fazer mágica.
A porta do quarto se abriu, minha mãe saiu:
-Ela está bem. Quero dizer que o que Peeta fez ajudou bastante. Ela estava sentindo muita dor, e aquele morfináceo diminuiu seu sofrimento.
Morfináceo? Foi isso que ele colocou nela? Como sabia qual era o frasco? Queria perguntar, mas o foco tinha que ser mantido em Prim. Minha irmã precisava de mais atenção. Olhei para Gale e disse:
-Você pode ficar aqui com Greasy? Ela precisa de alguém mais conhecido com ela, e você fará boa companhia. Tenho que falar com Prim.
-Vou com você. disse Peeta.
-Vamos juntos então.
Nos levantamos das cadeiras. Gale seguiu com minha mãe para o quarto, enquanto Peeta e eu saíamos para o lado de fora da casa.
-Como você sabia o que era o morfináceo?
-Todas as manhãs venho aqui em sua casa trazes os pães. E já houve vezes em que sua mãe estava ocupada cuidando de doentes. Você estava dormindo é claro. Via quando ela pegava aquele frasco, colocava nos ferimentos e os pacientes sentiam alívio imediato. Imaginei que aquilo poderia ser morfináceo.
Gale era forte. Sabia caçar. Havia sido meu parceiro nas caçadas por todo este tempo. Mas Peeta tinha a inteligência. Era muito esperto. Sabia se camuflar, enganar o inimigo. Ficar despercebido.
-Tenho que dar os parabéns ao senhor Mellark.
Continuávamos andando, já num passo mais lento do que o normal.
-Sabe senhorita Everdeen, há muitas coisas sobre mim que você desconhece. -Ele se virou para mim- Eu não sou apenas o filho do padeiro. Minha única habilidade não é apenas cozinhar e me camuflar.
Eu sabia que Peeta tinha outras habilidades. Ele não era fraco.
-Ah é!? O que você sabe fazer a mais? Disse sorrindo.
Ele me parou. Se virou para mim.
-Sei fazer isto.
Me beijou.

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